ChatGPT alucina depoimentos e gera multa de US$ 5 mil a advogado

Alex da Cruz
Alex da Cruz é desenvolvedor full-stack em São Paulo. Trabalha com React, TypeScript e automação, e usa inteligência artificial no dia a dia para resolver problemas reais de código e de operação — não como demonstração. Já tocou uma operação de e-commerce de ponta a ponta e hoje constrói e mantém o pipeline de automação por trás deste blog. Escreve aqui sobre o que testa de fato.
Usar inteligência artificial para resumir volumes extensos de documentos traz riscos diretos para a rotina de trabalho. A Suprema Corte do Novo México condenou o advogado de defesa Stephen Aarons por desacato, aplicando uma multa de US$ 5 mil e abrindo processo disciplinar após o envio de uma petição de apelação recheada de depoimentos e testemunhas falsas gerados pelo ChatGPT.
Diferente de episódios anteriores da advocacia em que a IA inventou jurisprudência, este caso envolve a sumarização de fatos do processo. Conforme apurado pelo Ars Technica, o advogado transcreveu os áudios do julgamento e submeteu o material ao ChatGPT baseado no modelo OpenAI o3. Em vez de apenas sintetizar os fatos, o modelo criou falas policiais inexistentes e inventou nomes de quatro testemunhas que jamais depuseram.
Por que o ChatGPT inventa fatos ao resumir documentos reais?
Modelos de linguagem não leem documentos como um auditor humano. Ao sintetizar transcrições longas ou processos volumosos, a IA gera continuações de texto com base em probabilidades estatísticas. Se as instruções não impuserem limites rígidos de extração, o sistema preenche lacunas narrativas criando detalhes verossímeis, porém totalmente falsos.
Em sua defesa perante o tribunal, Aarons alegou acreditar que o modelo geraria uma síntese precisa por conta da popularidade da IA. A corte rejeitou a justificativa e destacou que a responsabilidade final pelo conteúdo assinado é sempre do profissional, independentemente de o trabalho ter sido feito por um estagiário, um colega ou um software.
O que muda na prática para quem usa IA no trabalho?
O caso serve de alerta prático para quem utiliza ferramentas de IA para condensar relatórios, contratos e processos:
- Resumo não é documento final: Qualquer síntese gerada por IA deve ser tratada como um rascunho temporário e nunca usada sem validação direta na fonte.
- Responsabilidade in transferível: Dizer que desconhecia a capacidade da IA de alucinar não isenta o profissional de sanções financeiras ou éticas.
- Checagem criteriosa de entidades: Nomes próprios, datas, citações diretas e valores são os pontos onde a IA mais comete erros ao resumir grandes volumes de dados.
"Não importa a ferramenta. Não importa se você usou um advogado nota 5 ou nota 10 se você não conferiu o trabalho antes de protocolar." — Juiz Michael Vigil
Fontes
Perguntas frequentes
- O ChatGPT é confiável para resumir processos judiciais?
- Não de forma autônoma. O modelo pode inventar nomes, fatos e depoimentos em documentos extensos. Cada ponto resumido precisa ser verificado no texto original.
- Qual foi a sanção aplicada ao advogado pelo uso da IA?
- O advogado foi multado em US$ 5 mil, suspenso de atuar na Suprema Corte estadual e encaminhado ao conselho disciplinar por protocolar petição com dados falsos.
- Como evitar alucinações ao usar IA em tarefas profissionais?
- Adote uma rotina rigorosa de checagem. Utilize a IA para estruturar o texto, mas faça auditoria humana direta em todas as citações, dados numéricos e nomes.
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